domingo, 25 de julho de 2010

Manual de amor ao artista - Por Maisa Costa


-------------------Manual de Amor ao Artista------------------------

Para se amar um artista tem que saber ser livre.
Não falo do amor livre, aquele desvairado em que nada importa, em que corpos
e bocas diversas fazem parte de tudo sem mesmo fazer parte de nada.
Não é desse que falo, absolutamente.

Também não falo de amor livre, desses que quase já não há amor. Aquele que as pessoas fingem se amar, fingem se importar mas na verdade não se importam. Olham para o lado sempre a procura de algo melhor e sofrem por dentro por não saber o que procurar.

Não é desse amor que falo. Na verdade nem quero dizer nada sobre amor livre. Não é o amor que deve ser livre.

Nós é que temos que ser livres.

E ser livre não significa ser rebelde, adverso, descompromissado ou desinteressado. Ser livre não significa fazer o que acha que deveria para parecer independente. Ser livre não significa agir inconseqüentemente sem se preocupar com o que o outro sente, com o que o outro pensa, com que o outro precisa.

Ser livre não é estar ausente.

Aliás, acho que esse é um dos maiores desafios da liberdade: estar presente.
Porque pra você ser livre você tem que entender o mundo, a diversidade dos sentimentos, a diversidade de pessoas, a diversidade de idéias e opiniões. Você tem que fazer suas escolhas sem ferir as alheias, sem prender, sem forçar, sem dominar.

Ser livre não é estar no topo. É estar, apenas.

E pra se amar de verdade um artista é preciso entender que nada é o que parece. Que as coisas mudam e quem nem sempre dão certo. É preciso entender que sonhos podem virar realidade - nem que seja somente na ponta do lápis - mas que nem sempre esses sonhos são reais. Podem ser só sonhos do artista. É preciso entender que as horas passam, os dias passam, os anos passam e ele vai estar sempre lá, apaixonado pelo trabalho (que vai ser o único amante verdadeiro de sua vida).

Por esse motivo o artista ama seu trabalho: porque é livre.

Para se amar um artista é preciso olhar com atenção e se deixar ser olhado.
É preciso estar só e deixar só - sem realmente estar em ambos os momentos.
É preciso: criar rotinas dentro do caos, novas histórias dentro da história, motivos pra amar, espaços pra viver.

É estar lá e saber que o artista também vai estar. É sentir e saber que o artista também vai sentir. É amar e saber que o artista também vai amar, sem necessariamente ele ter que provar isso a todo o momento.

As provas de amor de um artista vêm através de sua arte. O quanto mais ele
ama, mais ele se sente criador. Não que o artista não crie também quando está triste ou desamado - mas aí é quando o amor próprio fala. Ele às vezes vai parecer distante, às vezes vai parecer frio, às vezes vai parecer triste - e não vai ser por sua causa. O artista sofre, sozinho, de sua própria criação.

Ele às vezes vai parecer animado, às vezes vai parecer eufórico, às vezes vai parecer feliz. Aproveite sempre esses momentos com ele.

Mas não quero dizer com tudo isso que amar um artista é uma entrega solitária. Ele também vai te amar e te agradar e te respeitar: se você for livre

Livre pra amar seu jeito desconexo. Livre pra entender suas ausências. Livre pra admirar suas criações. Livre pra controlar os ciúmes. Livre pra se ausentar sem jogos. Livre pra viver sem amarras. Livre pra amar sem medo. Livre sem medo de ser amado da forma que ele souber amar.

Para se amar um artista tem que se entender que o amor é livre, sem necessariamente ser o amor livre, desvairado ou o amor livre desinteressado. O amor é livre pois é pessoal, individual e intransferível. É variável dentro de uma mesma forma e simples o suficiente para assustar.

Para se amar um artista tem que saber que não importa o que acontecer, se você for digno de receber amor - qualquer tipo de amor - ele será seu.

Inevitavelmente.

Pode parecer complicado, muitas regras, muitos problemas mas não, não é assim.

A grande questão que você precisa saber responder para saber se pode ou não amar um artista é: Você sabe ser livre?

Se a resposta for não, eu sinto muito. Se a resposta for sim, então apenas te informo que, se você for realmente livre, o artista te amará antes que você o ame - e não há como não amar um artista apaixonado.

Étiene Decroux - uma inspiração para nossa limpeza e precisão cênica



Tem um bom tempo que não posto sobre o Cria... A vida vai tomando o nosso tempo sem que percebamos... Só disciplina não basta "é preciso estar atento e forte".

O grupo depois de um recesso após as pesquisas, se prepara para o retorno. Baseado em uma cena real (por mim testemunhada na presença da Vivi) desenvolvemos a nossa primeira cena. Tudo começou quando depois do nosso ensaio indo embora, deparamo-nos (Vivi e eu) EM PLENA AV. MARECHAL TITO - SÃO MIGUEL com um morador de rua acocorado a uma poça de água suja (que jorra de um cano há anos na mesma calçada do banco itaú) lavando suas mãos e bebendo daquela água com uma sede... Uma cena chocante e triste!!!

[...]

Estamos nús, a bem de um título de peça para "Vestir os Nús"... Tiraram nossos óculos cor de rosa e de repente percebemos aquilo que sempre existiu e que tanto Plínio Marcos fez questão de berrar... E agora, José?

Vamos experimentar a cena com alguns atores... Logo postamos mais informações sobre, bem como registros.

Agora... paralelo a isso, o grupo pesquisa sobre o pai da Mímica, Étiene Decroux (o sobrenome lê-se DECRÚ). Como teremos o corpo como uma possibilidade dramatúrgica, percebeu-se a necessidade de estudar nosso corpo, gestos e movimentos, para daí criarmos partituras corporais limpas e precisas... Sobre a teoria disporei em breve...

Segue um breve resumo deste homem que transformou as artes do corpo... Bom mergulho!!!

Guilherme Vale - Cria de Gonzaga


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Étienne Decroux (Paris, 19 de julho, 1898 - Boulogne-Billancourt, 12 março, 1991) foi um grande ator e mímico francês.
Depois de sua formação na escola do teatro do Vieux-Colombier de Jacques Copeau, ele participou da companhia de Charles Dullin onde ele trabalhou como ator durante vários anos.
Igualmente, Decroux trabalhou sob a direção de Antonin Artaud, de Louis Jouvet e participou de muitos filmes dirigidos por Marcel Carné e pelo surrealista Jacques Prévert.
Seu interesse é marcado pela expressão do corpo. Ele terminou sua carreira como ator para se dedicar inteiramente à pantomima ou arte do movimento.
Em colaboraçao com Jean-Louis Barrault, seu primeiro aluno, suas pesquisas se dirigiram a elaborar uma técnica que ele nomeou Mimo Corporal (Mime Corporel). Nos anos de 1940 ele fundou uma escola em Paris onde vários artistas importantes do mundo inteiro participaram. Ele ensinou também em várias instituições de prestigio mundial, como o Piccolo Teatro de Giorgio Strehler, o Actors Studio de New York onde ele criou sua própria companhia nos Estados Unidos na década de 1950. Entre seus alunos pode-se citar Marcel Marceau, Yves Lebreton, Thomas Leabhart, Jean Asselin, Corinne Soum.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

OBJETIVOS DO PROJETO E FICHA TÉCNICA - HOMENS NÃO CHORAM


Para realizarmos o HOMENS NÃO CHORAM a todo este processo adicionaremos também uma profunda pesquisa na área multimídia (imagens, sons, vídeos, etc), uma vez que também acreditamos que o ator do século XXI convive com novas tecnologias. Purismos a parte, endossamos que a expressão cênica munida de relevante tecnologia pode criar uma atmosfera impactante no espectador.

Abrangendo o projeto do ponto lexical, ainda temos como objetivos:

1. Objetivos Gerais

Proporcionar a população o acesso a um bem cultural de qualidade, criando um espaço de debate sobre o papel do teatro e sua relação com a realidade social do país. Outro propósito do projeto é discutir a sociabilização dos bens culturais, e torná-los acessíveis, unindo qualidade artística e formação de público.

Mas, o que se busca acima de tudo, é a ampliação do alcance ao teatro, inserindo-o na vida do espectador, através dos seguintes objetivos:

 Maior divulgação da arte do “extremo-leste periférico brasileiro” e suas potencialidades.

 Questionamentos sócio-culturais e políticos para com a sociedade.

 Levar ao público, jovens e adultos, que ainda estão carentes de cultura e arte nas periferias de São Paulo, a sua/nossa realidade, difundindo um pouco nossa história, crenças e costumes proporcionando um questionamento dialético com o intuito de ampliar, resgatar nossas raízes e melhor compreender o presente, aqui e agora.

 Desmistificar o teatro e a literatura poética como feita pela e para a elite, fazendo com que enxerguem a arte como meio de comunicação possível e “acessível” a todos.

 Embora todas as dificuldades apresentadas para manter um grupo de estudo e de teatro, visamos dar continuidade a formação de repertório e autonomia artística enquanto grupo de teatro profissional da zona leste de São Paulo.


2. Objetivos Específicos


 Pesquisar, estudar e selecionar crônicas, poemas, poesias, contos, pichações em muros, imagens, matérias jornalísticas, fotografias, artes urbanas, mensagens anônimas da internet e todas as possibilidades que sirvam de inspiração e que sejam de domínio público que tematizem o embrutecimento do homem e a transformação da sociedade. EM ANDAMENTO

 Fazer a dramaturgia do material selecionado.

 Produzir a peça HOMENS NÃO CHORAM encenando o texto resultante da pesquisa.

 Realizar a temporada inicial da peça, permanecendo em cartaz por 07 semanas, realizando o total 18 apresentações/sessões em teatro ou espaço alternativo equivalente a ser definido na capital de São Paulo.

TEMPO ESTIMADO: 80 minutos
PÚBLICO-ALVO: Recomendado para os seres humanos, embrutecidos ou não pela vida
FAIXA ETÁRIA INDICADA: Maiores de 14 anos.
PÚBLICO ESTIMADO EM CADA SESSÃO: 160 pessoas aproximadamente

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FICHA TÉCNICA


Idealização, Concepção e Coordenação do Projeto – Guilherme Vale
Homens Não Choram – Espetáculo poético experimental


Direção Geral – Guilherme Vale

Argumentação – Cria de Gonzaga

Dramaturgia – Viviam Motta, Roberto Asor e Cria de Gonzaga

Assistente de Direção – Daniela Oliveira e Roberto Asor

Supervisão Artística: Carlos Godoy

Músico: Peter Rojaz

Cenário – Cria de Gonzaga

Figurinos e Adereços – Daniela Oliveira, Éryka Rodriguez e Cria de Gonzaga

Preparação Corporal – Daniela Oliveira

Criação e Montagem de Luz – Marcos Carreira

Produção – Grupo Cria de Gonzaga, da Cooperativa Paulista de Teatro


Elenco de atores:

Clodoaldo Dias
Daniela Oliveira
Éryka Rodriguez
Roberto Asor
Thiago Carreira

Grupo Cria de Gonzaga é: Éryka Rodriguez, Daniela Oliveira, Guilherme Vale, Roberto Asor, Thiago Carreira e Viviam Mota.

Artistas e profissionais convidados: Carlos Godoy, Clodoaldo Dias, Marcos Carreira e Peter Rojaz.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Núcleo Adulto - Homens Não Choram


Olhar para o homem em dado momento é olhar para si. O "Homens" vem proporcionando para nós o privilégio da reflexão, da observação, da introspecção, do milagre da CRIAção.

Mais por questões de misticismo, descreveremos de forma sucinta o projeto que compõe o núcleo adulto.

É válido ressaltar que a proposta do projeto cênico I é realizar a montagem simultânea ou sequenciada de espetáculo para o público infanto juvenil e adulto (em andamento o "HOMENS NÃO CHORAM") mas, para tal é sabido que só com patrocínio ou o fomento dado por editais. Diante das dificuldades, estamos em andamento de forma independente e limitádissima contando com o acaso.

Homens não choram é um projeto muito especial que, a cada novo encontro realizado descobrimos novos caminhos, novas possibilidades. Tanto que estamos cogitando a possibilidade de termos HOMENS NÃO CHORAM 1, 2,3...

Nossa dramaturgia está sendo criada em um trabalho colaborativo mas, como responsáveis a querida Viviam Motta, o sensível Roberto Asor e eu.

Segue abaixo resenha do HOMENS NÃO CHORAM.

[...]

APRESENTAÇÃO

... Homens não choram, projeto para montagem de espetáculo multimídia teatral, tem como proposta, traduzir dramatúrgica e cenicamente os aspectos (atitudes e motivos – se é que existem) que levam a nós, homens, ao embrutecimento humano - social, sendo desenvolvidas e percebidas nas várias situações do cotidiano.

Em nossos levantamentos, estudos e debates, o assunto que nos foi recorrente é a pesquisa dos motivos que fazem um homem chorar (ao menos deveria), tendo como pano de fundo textos, crônicas, poemas/poesias, composições musicais, corpo e o cotidiano retratado pelos olhares de diversos poetas e poetisas, por nós buscados, que passarão a ganhar um novo significado textualmente...

[...]

JUSTIFICATIVA

...Homens Não Choram trata de colocar em cena a poesia como explicação da trans- formação da sociedade, da humanidade. A poesia conhecimento, questionamento, inquietação, salvação. A poesia capaz de transformar o bicho homem. A poesia que revela o mundo e cria outro. A poesia oração, litania, epifania, presença. A poesia exorcismo, conjuro, magia. A filha do acaso, fruto do cálculo. A poesia de expressão histórica de raças, nações, classes. A poesia do regresso a infância, experiência, emoção, sentimento, intuição, filosófica, língua dos escolhidos, palavra do solitário. A poesia que em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Homens Não Choram não se trata de um recital. O recital tem lá o seu espaço, que deve ser respeitado, mas não é isso que queremos. Queremos dar ação, vida, exaltar a beleza das palavras.

E para afugentarmos tons monocórdios, plasticamente, recorreremos aos recursos da fotografia, áudio e vídeo como apoio cênico (ajudando-nos na tradução e resolução de textos/situações/cenas) e buscaremos na essência do teatro o rito, a cerimônia que contempla o universo onírico e o conflito, o embate entre o sagrado e o profano, o espaço mágico onde os artistas trocam de pele infinitamente exercendo o seu ofício, que é espelhar o homem e a sociedade com suas angústias, seus questionamentos, seus ideais, seus sonhos. Sua vontade de crescer, de se conhecer e de ser melhor.

E por tudo isso é que queremos por em cena o nosso olhar poético procurado (que será encontrado) na sociedade em diversos momentos de nossas vidas como um bálsamo, luzeiro e caminho em busca do conhecimento possível. Trataremos falar de nossas vontades inquebrantáveis na dura queda-de-braço com a natureza. E nos questionarmos:
Afinal, homens não choram?
[...]

>>>> Continua...

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Olha nós aqui, de novo!

Junho (quando tardiamente nos conectamos com o mundo virtual) foi o mês para falarmos um pouco da nossa história. De como surgimos, de alguns escritos e sobre o nosso primeiro trabalho, Jogo de Cenas, que nos trouxe muito êxito e amadurecimento.

À partir deste mês, blogaremos sobre o nosso novo processo criativo: espetáculo poético experimental "HOMENS NÃO CHORAM" que integra a pesquisa continuada do PROJETO CÊNICO I, desenvolvida pelo grupo.

Apresentaremos nossa pesquisa, nossos núcleos, registros do nosso atual processo, enfim, tudo para termos esse espaço como ferramenta interativa...

Por essa noite é só... Vamos organizar o material para logo dispormos neste espaço!!

Para encerrarmos com chave de ouro, despedimo-nos com o poema abaixo.

Até breve,

Guilherme e Cria de Gonzaga...

José
E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade - Poeta itabirano com o mundo na ponta da caneta